POLILAMININA: A CIÊNCIA FORA DE FOCO

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Marcelo Girardi Schappo

www.professormarcelogs.com

@prof.marcelogschappo

De olho nas notícias sobre ciência das últimas semanas, o assunto do momento é a polilaminina: uma substância anunciada como promissora para recuperar lesões medulares e permitir que pacientes com paraplegia, por exemplo, retomem movimentos. O assunto já foi parar até no Fantástico, da TV Globo. A pesquisa é brasileira e a cientista-líder por trás dela, Tatiana Sampaio, ganhou destaque em diversos veículos de imprensa.

Por um lado, como cientista que sou, sempre é bom comemorar pesquisas relevantes feitas aqui e o espaço para temas de ciência na mídia tradicional; por outro, a realidade dos fatos é que os resultados da polilaminina estão sendo supervalorizados, quase como frutos extraordinários de uma grande descoberta científica. E é aí que a ciência fica fora de foco: anunciando apenas as supostas “promessas milagrosas” de cura que a substância desperta, deixa-se de lado a oportunidade de esclarecer às pessoas qual é o nível real de evidência científica disponível ao redor do assunto. Portanto, está aí um bom assunto para o artigo inicial da coluna Explica Essa.

É natural que a ideia de se recuperar movimentos após uma lesão na medula espinhal desperte atenção imediata. O interesse pelo assunto é compreensível, mas, do ponto de vista científico, a situação é ainda muito mais incerta do que sugerem as manchetes das últimas semanas: hipóteses iniciais, ainda frágeis, são tratadas como soluções consolidadas. E, vejam só, não é a primeira vez que isso acontece.

Em 2011, por exemplo, foi anunciado pela imprensa que, em determinado experimento, partículas subatômicas conhecidas como neutrinos haviam se movido com uma velocidade ligeiramente maior que a da luz no vácuo, o que sabemos não ser possível, de acordo com a Teoria da Relatividade Especial de Einstein. Depois, após tentativas de reprodução do resultado, algo fundamental na ciência, verificou-se que o anúncio era, na verdade, alarme falso.

Indo um pouco mais adiante no tempo, em 2016 foi a vez da “pílula do câncer”, da USP. Alguém lembra da tal fosfoetanolamina? Todos anunciavam apenas o que queriam – o surgimento de um suposto novo tratamento capaz de curar a doença – e deixavam passar bem de baixo do nariz que, na verdade, nenhuma boa evidência científica sustentava a afirmação. Todo o entusiasmo acabou em ilusão.

De volta à polilaminina, anote aí: até o momento, ainda não foram disponibilizados estudos clínicos amplos, conduzidos com rigor metodológico suficiente para sustentar conclusões firmes sobre sua eficácia em humanos. As informações divulgadas até agora baseiam-se majoritariamente em relatos preliminares, entrevistas e em um “pré-print” (termo que usamos na ciência para nos referir a um tipo de publicação que ainda não passou pela revisão por pares, quando outros cientistas avaliam criticamente os resultados, uma das etapas fundamentais no processo para validar estudos científicos).

Ou seja, ainda não há base suficiente para estabelecer uma relação causal confiável entre o uso da substância e as melhoras observadas. Na medicina, impressões iniciais e relatos de casos isolados não são suficientes para estabelecer relações de causa e efeito. É por isso que existem as diferentes fases de ensaios clínicos, com grupos maiores, controles adequados e metodologias desenhadas para eliminar conclusões equivocadas.

No caso da polilaminina, estamos ainda nas etapas iniciais desse processo. E as estimativas gerais relacionadas a teste científicos de novos tratamentos apontam que somente cerca de 10% a 20% deles chegam ao fim do percurso com comprovação de segurança e eficácia. Isso não significa, é claro, que a polilaminina não funcione; significa apenas que ainda não sabemos.

O problema de ignorar essa incerteza é que ele não fica restrito ao campo das ideias. Quando a comunicação pública transforma uma hipótese em promessa, as consequências são concretas. Como bem observa o jornalista de ciência Carlos Orsi, atitudes desse tipo podem levar as pessoas a tomarem decisões precipitadas e incompatíveis com o estado atual das pesquisas, como a busca por tratamentos fora de protocolos, o uso precoce e não supervisionado e a judicialização, quando ocorrem pedidos para que o sistema de saúde forneça terapias ainda não aprovadas.

Esse tipo de pressão pode, por sua vez, influenciar decisões de política pública. Órgãos reguladores como a ANVISA existem justamente para garantir que medicamentos sejam avaliados com base em evidências sólidas antes de chegarem à população. A ciência não é um processo instantâneo. E isso não é uma falha, mas uma das suas características essenciais. O tempo necessário para testar, refinar e confirmar resultados é justamente o que permite separar achados consistentes de ilusões precipitadas. Nada disso diminui a importância da pesquisa com polilaminina, ou de qualquer outro esforço voltado a tratar lesões medulares. Pelo contrário: a esperança é um motor poderoso, mas precisa estar ancorada em evidências para não se transformar em frustração.

Marcelo Girardi Schappo é catarinense, doutor em Física e professor do Instituto Federal de Santa Catarina. Trabalha com pesquisas envolvendo a interação da radiação com a matéria e tem se dedicado a diferentes atividades de divulgação científica nos últimos anos: séries, quadros e programas na TV, além de ter dois livros escritos em linguagem voltada ao público geral (“Armadilhas Camufladas de Ciência” e “Astronomia: os astros, a ciência, a vida cotidiana”).

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