
Regristro de eclipse lunar parcial. Imagem Samuel Müller
Nem todo mundo entende de astronomia, mas quase todo mundo é pelo menos curioso sobre o assunto. E um dos eventos astronômicos que mais chamam a atenção do público são os eclipses, tanto do Sol como da Lua. E, agora em agosto, o Brasil está em uma região privilegiada do planeta, de modo que conseguiremos acompanhar um eclipse lunar do começo ao fim.
Os eclipses são eventos resultantes do alinhamento astronômico entre Sol, Terra e Lua. Nos eclipses solares, a Lua atravessa a região entre o Sol e a Terra; nos lunares, como agora, ela passa exatamente pelo lado oposto ao do Sol, em relação à Terra, e aí, é claro, somos nós que ficamos no meio do caminho. Três tipos de eclipses lunares podem acontecer: caso a Lua entre totalmente na sombra da Terra, o eclipse é do tipo total; caso ela fique com uma parte dentro e outra parte fora da sombra, é eclipse parcial; e caso ela nem mesmo entre na sombra terrestre, ficando apenas dentro da região chamada de “penumbra”, então o eclipse se classifica como penumbral.
Para quem não sabe, o brilho bonito e intenso da Lua no céu noturno é consequência da luz do Sol que reflete na sua superfície. Se a Lua entra na sombra da Terra, nenhuma luz solar consegue atingi-la diretamente; já na penumbra, apenas uma parte da luz solar é bloqueada pela Terra, o que faz dessa região, então, de forma simples, uma “sombra não tão escura”.
Neste mês de agosto, o eclipse lunar será do tipo parcial. Quase total, pra ser sincero, já que a Lua entrará na sombra da Terra com cerca de 93% do seu diâmetro, o que leva ao encobrimento de, aproximadamente, 96% da sua superfície aparente. É bastante coisa!
À medida que a Lua entra na penumbra e, depois, na sombra da Terra, o que se observa é um progressivo obscurecimento do disco lunar, como se ela fosse levando “uma mordida” na parte que vai “afundando” na sombra. E o mais curioso é o que ocorre depois: essa região lunar que sofreu o escurecimento inicial passa a ganhar uma tonalidade alaranjada ou avermelhada.
A explicação para isso tem a ver com o fato de que a luz do Sol, que ilumina o Sistema Solar, é branca, ou seja, composta por todas as cores do arco-íris, desde o vermelho até o azul e o violeta. Como a Terra tem atmosfera ao seu redor, um pouco da luz solar que a atravessa acaba sendo desviada justamente para dentro da sombra do planeta. Mas, como, por aqui, o céu é azul, quando a luz solar passa pela atmosfera antes de seguir para a sombra, ela acaba “perdendo” um pouco da intensidade na coloração azulada, gerando um feixe luminoso de aparência predominantemente laranja ou vermelho, que vai acabar “pintando” a superfície da Lua que está trafegando lá por dentro.
É justamente esse efeito de escurecimento e avermelhamento do disco lunar que faz a observação do fenômeno valer a pena. Afinal, eclipses não acontecem todos os dias. Então, anote aí: a entrada da Lua na penumbra da Terra começa na noite do dia 27/08, por volta de 22h30min; o começo do eclipse parcial, quando nosso satélite natural inicia a entrada na sombra, ocorre a partir das 23h30min; o ápice do evento, quando a Lua estará mais escura e mais avermelhada, é a 01h15min da madrugada do dia seguinte, 28/08. Daí em diante, o processo se reverte, com a Lua perdendo os tons avermelhados e se tornando cada vez mais clara até o final do evento, ao redor de 04h00min da manhã.
Para observar o fenômeno, tudo o que nós precisamos é contar com a sorte: o céu precisa estar aberto, ou pelo menos parcialmente aberto, de modo a conseguirmos ver a Lua. Fora isso, nada mais: não é necessário nenhum equipamento especial. Basta paciência e resistência para passar boas horas da noite acordado acompanhando o eclipse.
Caso o tempo não colabore, ou o sono cobre seu preço, os próximos eclipses lunares visíveis aqui em Santa Catarina serão em fevereiro e em agosto de 2027 (ambos do tipo penumbral, com menor escurecimento e menor impacto visual), em janeiro de 2028 (do tipo parcial) e em junho de 2029 (um eclipse lunar total).
Marcelo Girardi Schappo é catarinense, doutor em Física e professor do Instituto Federal de Santa Catarina. Trabalha com pesquisas envolvendo a interação da radiação com a matéria e tem se dedicado a diferentes atividades de divulgação científica nos últimos anos: séries, quadros e programas na TV, além de ter dois livros escritos em linguagem voltada ao público geral (“Armadilhas Camufladas de Ciência” e “Astronomia: os astros, a ciência, a vida cotidiana”).

